sexta-feira, 9 de agosto de 2013

TESTEMUNHO DE VOCAÇÃO


TESTEMUNHO DE VOCAÇÃO


Quem é Dom Gabriel?
Benedicite! Me chamo Dom Gabriel Alves do Amaral. Sou natural da cidade de Morada Nova, mas residi até os 17 anos no Distrito de São João do Aruaru onde lá tive uma boa infância e uma boa juventude. Sempre tive um apreço por Futebol, limpava os quintais e terrenos alheios para transformar em campo de futebol. Então, desde muito cedo fui educado na doutrina católica pelos meus pais. Jogava a tarde toda, mas às 18h teria que estar pra rezar o terço com a família. No ano 2000 quando até então a capela passava a ser paróquia tivemos o privilégio de ter o primeiro Pároco, Pe. Luiz Abner. Ele no primeiro momento, comunicou na cidade que queria inscrever os jovens da cidade para ser coroinha e consequentemente formar um time de futebol. Quando fiquei sabendo disso, me encheu os olhos e não pensei duas vezes. Mas quando fomos pra prática, percebia que estava mais no altar do que no campo. O primeiro grupo de coroinhas foi formado, no total éramos 213 coroinhas, sendo meninos e meninas. Numa reunião com o coordenador Geral dos coroinhas, o Pe. Abner me chama para coordenar também os meninos, pois a necessidade era grande assim como era a quantidade. Na inauguração das vestes fizemos uma bela procissão no Domingo de Ramos. As ruas foram tomadas pelas vestes vermelhas e brancas, o martírio e a pureza, de meninos e meninas que em sua maioria hoje estão casados. Foi uma fase fantástica porque tive a oportunidade de conhecer muito de perto a Liturgia, embora ainda fosse fundamental aprofundar. Logo depois manifestei a minha vontade de entrar no seminário arquidiocesano para iniciar o curso de Filosofia. O Padre então me inscreveu para participar das reuniões no propedêutico, mas não apareci em nenhuma. Notei que ele ficou meio decepcionado e isso foi o estopim para que eu procurasse outros rumos. Bom, no grupo de coroinhas fiquei 3 anos e daí sentir o chamado de Deus para o sacerdócio. No primeiro momento iria ser diocesano mas como minha irmã morava perto de um mosteiro em Fortaleza, resolvi então conhecer primeiro o mosteiro.



2. porque na ordem de São bento?
Minha irmã por morar perto do Mosteiro de São Bento de Fortaleza, na Paupina me convidou a conhecer, pois alí ela tinha contato com alguns monges. Antes disso, tinha uma barreira que me impedia de ser monge ou padre. Eu tinha um problema nas cordas vocais, ou seja, apenas uma corda vocal funcionava e a outra não. Então me fiz conhecer ao abade com esse problema e lhe comuniquei o que Dom José, o arcebispo, tinha me pedido, que cuidasse antes da voz para ingressar, seja no mosteiro ou no seminário. A partir daí minha irmã e eu andávamos na cidade toda atrás de uma clínica de fonoaudióloga, mas não conseguíamos. Foi aí que o Abade por ter amizades no mosteiro me apresentou uma senhora que me ofereceu de graça todo o tratamento numa clínica na Assembleia Legislativa do Ceará. Lá conheci a fonoaudióloga que infelizmente hoje não tenho mais contato. Uma mulher muito dedicada e atenciosa, me atendeu muito bem e as primeiras palavras dele foi: se você quer ser tratado vai levar dois anos, e eu como estava querendo entrar no mosteiro foi meio decepcionante porque queria vestir aquelas roupas pretas e cantar aqueles belíssimos cantos. Não foi fácil, me dedicava por inteiro a todo tratamento, fazia diariamente todos os exercícios que eram passados a ponto da minha garganta sangrar. No sétimo mês de tratamento, algo de extraordinário aconteceu, dormir com a voz de um jeito e acordei com a voz de outro jeito. Todo mundo ficou espantado diante daquilo. Minha mãe nem reconheceu quem era que falava do outro lado da linha telefônica. E assim, se deu o tratamento, recebi alta no oitavo mês, não foi preciso passar dois anos, a fonoaudióloga achou incrível aquilo pois nunca tinha acontecido com seus pacientes. Tinha 17 anos de idade quando entrei no Mosteiro para fazer a experiência definitiva, daí fiquei por oito meses até entrar no postulantado. Era o dia 1 de Novembro de 2003, dia de todos os Santos quando recebi o postulantado. No dia 11 de julho de 2004 fiz o noviciado, onde o primeiro ano canônico foi feito na Arquiabadia de São Salvador da Bahia. Fiquei encantado com aquela estrutura enorme que comportava todo um quarteirão da cidade. Tive bons formadores os quais hoje ainda permanecem por lá. O Arquiabade então, uma figura paterna, que assim como foi São Bento, ama e cuida com zelo dos seus monges. Voltando para casa iniciei os estudos no curso de Filosofia no qual tive e fiz verdadeiros amigos e irmãos como Reginaldo, fundador desta comunidade. Em 11 de julho de 2006 fiz minha profissão temporária e 2009 a profissão perpétua. Terminando o curso de Filosofia retornei para Salvador onde fiz meu curso de Teologia. Agora retorno novamente para Fortaleza com o objetivo de se tornar sacerdote. O monge no mosteiro, ele opta por querer ser sacerdote ou não. A comunidade é quem julga se o monge estar preparado para receber as ordens depois ter feito os cursos de Filosofia e Teologia. Eu sou feliz sendo monge, estou há 10 anos e não me arrependo um só instante, se eu nascesse sete vezes, nasceriam sete vezes monge. O segredo para permanecer é focar na opção pela qual você escolheu. Eu escolhi seguir os passos de Cristo, não posso perder o foco, embora as vezes a visão se desvie, mas ela volta a tomar o rumo o certo. Dificuldades sempre temos e viver sem elas acho que a vida dentro do mosteiro seria um saco. Não procuro fazer desta vida uma rotina, assim ela cairia na mesmice, todos os dias é um dia novo para mim, é o primeiro dia que entrei no mosteiro. Dessa forma, vou adquirindo experiência e me aprofundando nos mistérios da fé. Se diz que o mistério nunca se revela por inteiro, mas quanto mais se estuda o mistério, mais envolvente ele fica. Digo, estou envolvido por esse mistério e quero estar sempre mergulhado nas profundezas deste Oceano indecifrável que é Deus.

3. Um trecho bíblico que ajude em sua caminhada.
Um trecho bíblico que me orienta na minha caminhada é na verdade uma pergunta vindo do próprio Cristo em Mt 26, 50 feita a Judas: “Amice ad quod venisti?” ou seja, “Amigo, a que vieste?”. Então, todos os dias na minha vida de oração, trabalho e estudo tento responder essa pergunta pra Jesus. Acredito que Ele me escuta, mesmo quando as respostas estão conturbadas, Ele me ouve. No entanto, esta escuta deve ser recíproca, tanto a do Mestre como a do discípulo, pois, a necessidade da escuta na vocação é fundamental porque sem ela a vida torna-se sem sentido e solidez. Nosso Pai São Bento em sua regra, escreve no prólogo o quanto o monge deve inclinar o ouvido do seu coração para ouvir a voz do Mestre. Dessa forma, a nossa caminhada deve ser vivida em torno desta escuta profunda, que devemos levar ao coração e não somente ouvir e esquecê-la. 

4. Nesse mês vocacional deixe uma mensagem para os leitores que buscam discernir sua vocação.
Digo a todos, que não desperdicem a Graça de Deus em suas vidas, alimentem a fé e a esperança, acolham a voz de Deus que te chama para sair de si para acolher com vontade e autenticidade, esse amor que Deus quer que transmitimos para todos os povos. O Papa em sua vinda ao Brasil veio a nos instigar para sairmos de si, de nossos “mundinhos” e elevar nossos olhares a horizontes perdidos. A primeira vocação assim se deu com o Pai Abraão, ele saiu de si, ele saiu da sua terra e foi fazer a vontade de Deus. Nosso Pai São Bento também saiu de si, ele saiu da sua vida de conforto e foi viver sozinho numa gruta e depois com a comunidade reavivando o verdadeiro valor cristão. São Francisco também saiu de si, radicalmente também saiu de sua vida confortável para viver o evangelho que pregava Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim meus irmãos e irmãs é a nossa missão primeira de Cristão, é antes de tudo levar e pregar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, seja nos mosteiros, seminários, paróquias, comunidades e etc. E por fim não deixem de responder a esse chamado que Jesus faz sempre em suas vidas e responda também sempre esta pergunta que Jesus nos faz, “Amigo, a que vieste?” Mt 26, 50.



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